quinta-feira, 21 de dezembro de 2017

Freud explica

Bellatrix, minha companheira de almoço de quase 10 anos, me chama de cranky. E admito que sou rabugenta mesmo. Mala sem alça e sem rodinha, cheia de pedras, de papelão, ladeira acima em um dia de chuva.

Elmo, otimista incurável, diz que sou pessimista. Eu prefiro dizer que trabalho com os dados que tenho e sim, esse realismo todo às vezes dá nos nervos.

De acordo com algumas opiniões mais profissionais, sou introspectiva e com grande tendência à depressão [inclusive já passei por uma bem pesada, mais de década atrás], então, desde a descoberta da gravidez, depressão pós parto era uma preocupação. Depois, por conta dessa [perdão pelo vocabulário Machadiano] porrada que levei, a família inteira entrou em alerta.

Por providência divina ou interferência do Monstro do Espaguete Voador, o que quer que você acredite, eu passei todos esses meses com um bom humor que nem eu reconhecia.

Claro, em alguns momentos dava um bode bizarro.

E ficava pensando em como era injusto passar por aquilo tudo naquele que deveria ser o momento mais feliz da vida. E quando batia essa tristeza eu ia lá e escrevia no tal caderninho vermelho uma lista de “instruções” que incluíam desde onde estavam as informações sobre seguro de vida, senha do banco, até quais eram os colégios onde eu gostaria que Murilo estudasse.

E aí o bode passava, e foi assim pelos meses seguintes.

Com um barrigão de 7 meses nos mudamos pra um prédio no outro quarteirão, o que incluiu umas 30 viagens do Elmo tarde da noite com malas lotadas de livros, roupas e minhas bolsas [frio na espinha só de lembrar], e eu [in]felizmente sem poder ajudar.

E foi aí que meus braços ficaram em carne viva. É. Assim. Uma frase no meio do texto.

Apareceu uma pintinha, outra pintinha.
Em dias eu parecia uma cobra trocando de pele.
Agendei dermatologista.

Uns dois dias antes da consulta minhas pernas ficaram vermelhas. Em caso de curiosidade, a palavra que retorna uma busca no Google mais parecida com o que tive é púrpura, mas não recomendo procurar, não.

E eu magicamente lembrei que anos antes, na véspera da primeira prova de probabilidade do mestrado, tinha tido uma trombose. Toca procurar hematologista, fazer biópsia de braço, perna, mais exames de sangue.

[Pausa para organização: essas tretas aí em cima são as tais coisas que eu estava esquecendo que aconteceram. Só lembrei esses dias porque, mexendo na minha mochila amarela de fuga (aquela que contém todos os documentos importantes da família) encontrei as lâminas das biópsias. Tenso como a memória começa a falhar com a idade... oO]

Nesse meio tempo, em conversas com a Obstetra, a Endocrinologista e o Cirurgião/Oncologista decidíamos se o tumor seria retirado antes ou depois do parto. Por um tempo tive dúvidas sobre qual seria a melhor decisão, e resolvi então ouvir minha prima, quase irmã, que é neonatologista e me acompanhou de perto por todos esses meses: ele nasceria um pouquinho antes do previsto, mas estaria saudável e bem cuidado aqui fora pra eu poder cuidar de mim.

E então todas as manchas sumiram como apareceram. Do nada.

Talvez tenham sido causadas por estresse, algum bug no meu sistema imunológico. Nunca descobrimos de verdade o que houve. Durante toda a gravidez e até hoje, mais de um ano depois da radioiodoterapia, faço “conferências” diárias sobre se devo ou não voltar para a terapia [me “dei alta” cinco anos atrás] e confesso que até ensaiei um retorno, mas o fato é que ando meio zem zaco de encarar metrô/trânsito na hora do rush para voltar para o médico antigo [taí, deu saudade dele!] ou contar toda a minha vida para uma pessoa nova. E talvez por isso também tenha voltado com o blog.

Murilo nasceu em 30/08/2016 e ficou na UTI Neonatal por uma semana, sendo cuidado por minha prima [primeira pessoa que o pegou no colo] e uma equipe maravilhosa [que prometemos voltar para visitar e até hoje não fomos. Desculpa para isso não tenho porque o hospital é na esquina da minha casa].


Como disse antes, feliz por não ter mais a chave dessa porta!


Em 03/10/2016 voltei para o mesmo hospital para realizar a tireoidectomia.
Entrei na sala de cirurgia com a dúvida se seria total ou parcial, saí sem a tireoide e sem os linfonodos do lado esquerdo, pois foi verificada uma metástase. E com o aviso de que teria sim que fazer a radioiodoterapia.

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